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Regina Kosminsky, voluntária

2017-02-06

Entrevista

Todos sabem da importância do trabalho voluntário para as mais diversas instituições beneficentes, o que muitos desconhecem é que o voluntariado também traz inúmeros benefícios para o próprio voluntário, podendo inclusive ampliar seus horizontes e senso de propósito. Confira a entrevista com Regina Gutnik Kosminsky, arquiteta e artista plástica, que há 18 meses atua como voluntária de arteterapia no Froien Farain. Essa atividade acabou despertando nela o desejo de aprofundar os seus conhecimentos na área e desenvolver-se profissionalmente como arteterapeuta para a terceira idade.

Regina chama a atenção para as questões que envolvem a velhice e a importância de aproximar as diferentes gerações, um tema que merece mais atenção da sociedade, “diante de nossa cultura que valoriza a juventude e tenta tornar invisível o envelhecimento e suas questões - como a finitude da vida, as doenças e a dependência - é fundamental promover ações intergeracionais, entre crianças e idosos, para que a causa do idoso se torne aceita e importante para todos. Esse tipo de ação deve ser enfatizada. Com o envelhecimento acelerado da população, o cuidado com os idosos está se tornando uma realidade cada vez mais presente no Brasil, e precisamos, como sociedade, estar preparados para isso. Quando envelhecer, eu quero ficar no Froien Farain, ser residente! Lá é lindo!” 

FF - Qual é a sua história e como você chegou no Froien Farain?

RK - Desde menina, amo pessoas de idade. Sempre tive muita afinidade. Cuidei dos meus avós, dos meus tios-avós e dos meus sogros. Como cresci com esse contato, não tenho “medo” de idosos. Infelizmente, não pude cuidar dos meus pais, que faleceram muito cedo. Eu sou acolhedora, gosto de idosos, de crianças, de gente! Adoro me relacionar com pessoas e ajudar. Essa sou eu. E como eu fui parar no Froien? Um dia, estava andando em Ipanema e encontrei com a Denise Bergier, filha de Adélia Bergier, Diretora de Residência da instituição e minha amiga. Ela me disse - Rê, preciso de uma ajuda para um projeto que eu vou fazer lá no Froien Farain, são apenas dois dias, topa? Apesar de já ter ouvido falar, eu nunca tinha estado fisicamente na Casa Geriátrica do Froien, mas não quis recusar um pedido da minha amiga, então, fomos juntas. 

FF - E como foi essa experiência?

RK - Quando eu cheguei lá e comecei a ter contato com os velhinhos, fiquei muito tocada e me apaixonei na hora. Aí pensei: mas eu queria continuar vindo aqui, o que eu posso fazer? Aí a Miriam, arteterapeuta da Casa, estava do nosso lado e disse - olha, você pode vir me ajudar nas quartas-feiras pela manhã. Eu achei ótimo! Desde então, nunca mais deixei de ir. A única coisa que eu posso dar a eles é o meu amor e vou de coração aberto para acolhê-los. O que também foi muito lindo é que eu tenho uma neta de 12 anos, a Sofia, que se interessou em me acompanhar. Ela já foi duas vezes e os idosos gostam muito dela.

FF - Como é a atividade da arteterapia e como você contribui?

RK - A Miriam, arteterapeuta, trabalha com a memória e com a parte motora. Então, os exercícios são sempre para estimular a memória, a fala e os movimentos. Há trabalhos de colagem, desenho ou pintura - com apresentação e comentários ao final. Dou o apoio a ela nas atividades e, quando de férias, eu assumo a turma e fico responsável pelo programa.

FF - Como foi adequar o trabalho voluntário na sua rotina?

RK - Eu tenho uma agenda muito cheia, sou envolvida em várias instituições. Mas a gente tem prioridades. Então, as manhãs das quartas-feiras são reservadas para fazer o bem para quem precisa. Temos que ser menos egoístas e olhar um pouco mais para os outros. É uma questão de boa vontade: só não arranja tempo quem não quer.

FF - Ao longo do trabalho voluntário na arteterapia você acabou despertando interesse em se aprofundar nesse tema. Como foi isso?

RK - Eu pensei: a minha formação é em arquitetura, nunca trabalhei na área de saúde e, mesmo tendo feito terapia a vida inteira, me preocupei em aprofundar meus conhecimentos pois gosto de fazer as coisas com responsabilidade. Temia errar, pois não tinha conhecimento profissional da atividade e foi isso que me motivou a buscar esse curso. Eu descobri a arteterapia e como ela ajuda as pessoas em geral - não apenas os idosos – a se curarem, se descobrirem e se encontrarem. O curso de formação terá duração de dois anos e começará em março. O interessante disso é que eu posso levar a minha bagagem de conhecimentos sobre artes que adquiri na arquitetura para essa nova atividade. Descobri que arquitetos são ótimos arteterapeutas!

FF - E hoje, como você se sente?

RK - Depois que passei pelo processo seletivo do curso, fiquei pensando: porque isso aconteceu comigo? Eu sou uma pessoa extremamente sensível e acho que esse trabalho com os idosos me possibilitou unir o meu lado artístico, a minha sensibilidade, a minha história de vida e minha relação com os idosos. Atuar como arteterapeuta no Froien Farain tem tudo a ver comigo, foi uma grande conexão. Eu me sinto plena! 

FF - Como você vê a questão do idoso na sociedade?

RK - Eu, pessoalmente, amo os idosos. Talvez pela minha história pessoal, a questão do idoso me toca muito. Na verdade, ninguém quer saber das pessoas de idade porque, de forma geral, elas “incomodam” suas famílias e a sociedade. Eu acho que se importar com a questão do idoso é algo que vem da infância. Por exemplo: eu via a minha mãe cuidando dos meus avós e eu acho que a gente aprende, com isso, a dar valor à pessoa de idade, e tratá-las com carinho. Se o filho ou neto vê você fazendo, eles também farão. Acho que isso deveria vir na educação de todo mundo, dentro das famílias, que é onde se formam esses vínculos. Essa é uma das coisas que deveríamos ensinar para as crianças, que pessoas de idade deveriam ser tratadas de outra forma, não como um incômodo ou um peso - afinal, todos nós envelheceremos. Mas como não trabalhamos esse tema, a questão do idoso fica ainda em segundo plano, como uma causa que nos sensibiliza menos. 

FF - O que você acha que pode ser feito para reverter esse quadro?

RK - Diante da nossa cultura que valoriza a juventude e tenta tornar invisível o envelhecimento e suas questões - como a finitude da vida, as doenças e a dependência - é fundamental promover ações intergeracionais, entre crianças e idosos, para que a causa do idoso se torne aceita e importante para todos. Esse tipo de ação deve ser enfatizada. Os idosos amam receber as crianças. Emociona-me saber que a minha neta, que me acompanha, está tendo a oportunidade de experimentar essa convivência. Ela é muito sensível e isso vai ser fundamental para a formação dela e sua relação com os idosos. Com o envelhecimento acelerado da população, o cuidado com os idosos está se tornando uma realidade cada vez mais presente no Brasil, e precisamos, como sociedade, estar preparados para isso. Quando envelhecer, eu quero ficar no Froien Farain, ser residente! Lá é lindo!