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Letícia, enferemeira, conta sobre o cuidado ao idoso

2021-03-07

Entrevista

Letícia Gomes é enfermeira no Froien Farain há nove anos. E há cinco, atua como responsável técnica. Emociona-se e fica com os olhos marejados ao falar de nossos idosos. Filha de técnica de enfermagem, exerce a função por vocação e se sente gratificada a cada dia com o resultado desse trabalho que faz com amor e prazer.

Como é seu dia a dia na casa?

Implemento minha rotina com a dos residentes. Pela manhã ao chegar ao Froien Farain, verifico as demandas que preparei na véspera e vou seguindo com os acontecimentos do dia: seja com os residentes ou familiares. O contato direto é importante, pois como minha presença na casa é diária, todos me conhecem de alguma forma. Alguns sabem quem eu sou e qual a minha função e outros sabem, pelo menos, que faço parte da equipe de enfermagem. Cria-se uma referência.

Você conhece bem os moradores? De que forma isso ajuda no seu trabalho?

Conhecer bem o residente nos ajuda muito a melhorar o nosso cuidado. Alterações de humor, irritabilidade repentina ou ainda uma confusão mental já nos dão o sinal de alerta. Além disso, verificamos a parte fisiológica de nossos idosos. Sempre é bom saber o histórico de vida de cada residente. Quanto mais sabemos, mais fácil de tentarmos identificar. Qualquer informação é essencial. A intimidade com o residente é fundamental.

Logicamente não sabemos de toda informação em um primeiro momento. É complicado que os parentes queiram abrir a vida familiar para profissionais que acabaram de conhecer, mas aos poucos coletamos informações de outros parentes, visitantes, amigos da comunidade, de forma a traçarmos sempre a melhor estratégia para cada um. Entrevistamos os familiares e a equipe de enfermagem e profissionais da saúde têm acesso ao prontuário de cada morador, incluindo a ficha de entrevista.

Com que frequência a equipe multidisciplinar se reúne para discutir os casos de cada morador?

Semanalmente nutricionista, médico e equipe de enfermagem se reúnem para falar de alterações ou novas condutas com os nossos moradores. Mas é importante frisar que qualquer alteração importante no comportamento em que haja necessidade de intervenção, os profissionais entram em contato com o médico de forma imediata. Também fazemos uma reunião mensal com toda a equipe de saúde (fisioterapeuta, arteterapeuta, fonoaudióloga, psicóloga, enfermeiras, médico e nutricionista) onde tecemos alguns comentários sobre os residentes e escolhemos alguns para adoção de ações diferentes e trocamos experiências sobre as necessidades dos novos moradores.

Como funciona a atenção ao idoso em caso de mudanças de quarto?

Informamos primeiramente ao responsável dizendo qual a necessidade (obra, troca de companheiro, realocação, adaptação) e depois informamos ao residente, independentemente do grau de dependência. Todas as alterações importantes são informadas a todos os moradores também. Tomamos sempre o cuidado e ouvimos o residente em suas necessidades, por exemplo, “quero colocar um quadro, trocar a cor de uma cortina, trazer um objeto”; tudo é tratado com o morador e os familiares. Se ainda assim a adaptação não acontecer, buscamos alternativas. O quarto é a casa da pessoa. Temos todo o carinho com eles.

E em caso de mudança de companheiro de quarto?

Sempre informamos ao morador porque o colega de quarto está saindo, seja para outro quarto ou para o hospital. Em casos de óbito também, até porque eles convivem e têm atividades coletivas. Em relação à Covid, muitos nem sabem o significado desse termo, pois nunca vivenciaram algo assim. Podemos falar em sintomas de gripe, por exemplo. Buscamos o momento certo de falar com cada um. Atualmente não juntamos mais todos os residentes por causa da pandemia, mas falamos com cada um.

Apenas os familiares visitam a casa para a entrada de um novo residente ou o morador também visita?

As regras têm variado durante a pandemia. Atualmente, apenas os familiares. Caso o idoso esteja totalmente lúcido e queira muito, passará pelos mesmos cuidados que o familiar, seguindo todos os protocolos de segurança. Sempre com agendamento para não haver contato com os moradores. A visita é guiada diretamente ao quarto onde esse residente venha a ficar.

Como é feita a escolha do companheiro de quarto?

Fazemos a avaliação através da parte cognitiva ou da dependência de cada um. Buscamos equilibrar, por exemplo, o menos dependente com o mais dependente, o que fala menos com o que fala mais, para que aconteça a interação. Se esse “casamento” não der certo, trocamos novamente. Queremos sempre que a escolha dos companheiros dê match.

O que você mais gosta no seu trabalho? O que te motiva a acordar todo dia e ir para o Froien Farain?

Eu amo cuidar e dar qualidade de vida a quem está em uma idade mais avançada. Sempre me identifiquei, na área da saúde, com o cuidar, o olhar. Isso me impulsiona. Cuido por vocação e por amor. Como em toda família, brigo com eles e brigo por eles. Quando alguém se vai, sinto falta até das brigas. São nove anos aqui. O amor é tão grande que vou visitar no hospital, mesmo que isso não seja parte do meu trabalho.

Não importa a data. Natal, ano novo, eu amo o que faço. Enterrei minha avó no dia 25 de novembro, dia 26 já estava de volta. O Dr. Davis me perguntou: “já voltou”? “Tudo que podia fazer pela minha avó eu já fiz e eles precisam de mim”. Quando voltei de férias e fui tomar a vacina, me falaram: “você não pode tirar férias”. Eu sou muito alegre, canto na casa, danço, movimento o lar. “É uma alma de casa”.

Qual foi a maior dificuldade que você, como enfermeira, teve nesse momento de Covid?

Entender que tudo não depende só de mim. Achava que cuidar para que eles não pegassem dependia muito de mim. Queria colocar todos os funcionários morando juntos. É difícil conscientizar as pessoas de todos os cuidados, que é algo sério, que os pacientes dependem da nossa disciplina. Por mais treinamentos que tivessem, cada um tem que cuidar de si para cuidar do próximo. Empatia.

O que fez você escolher a enfermagem?

Minha mãe, minha vida! Desde o ventre eu vou para o hospital. Acompanhava nos plantões e sempre tive boas referências como enfermeira. Não quis fazer medicina. Gosto de cuidar. Mandei meu currículo no mesmo hospital que minha mãe trabalhava e meu primeiro emprego foi lá. Via as enfermeiras da época dela que frequentavam meus aniversários.

O Froien Farain é a segunda instituição geriátrica que eu trabalho. A primeira não foi planejada, foi uma oportunidade e lá me encontrei. Pretendo ficar muito tempo por aqui. Eu conto para todo mundo que quando eu casar vai ser aqui, com os residentes, nesse jardim.